A pandemia e a reinvenção do teletrabalho na Saúde

por Ana Teresa Almeida Santos*

*Diretora do Serviço de Medicina da Reprodução do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra; Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; Presidente do Conselho Consultivo da Associação Portuguesa de Telemedicina

Subitamente instalou-se o pânico do contágio e as instruções foram claras: “todos em teletrabalho”. E o teletrabalho foi reinventado por quem não tinha qualquer preparação.

Como diretora de um serviço hospitalar vocacionado para o tratamento da infertilidade que requer a colaboração de um anestesista, para concretização de técnicas de procriação medicamente assistida, e na ausência de diretrizes claras ou de suporte na evidência científica, tomei a decisão de cancelar os tratamentos agendados, de forma a tranquilizar os casais e a não contribuir para a temida escassez de profissionais de cuidados intensivos.

A Associação Portuguesa de Telemedicina e os seus dirigentes deverão ter uma palavra na redefinição das modalidades de consulta após esta pandemia. Seguramente, doentes e profissionais estarão já motivados.

Almeida Santos, 2020

Contudo, a minha obrigação é proporcionar o melhor tratamento possível aos utentes que me procuram. E, enquanto me for possível, fá-lo-ei e resistirei ao “para tudo”.

Com esta pandemia conseguiu-se motivar doentes e médicos para a teleconsulta. Num ápice, todas as consultas não urgentes passaram a ser não presenciais, por telefone apenas, na esmagadora maioria dos casos. Poupam-se deslocações, tempo nas salas de espera, ausências ao trabalho. Claro que não é a mesma coisa: nada substitui o olhar, o toque e o exame clínico. A empatia tornou-se virtual.

Há alguns anos desenvolvi a proposta de um projeto de utilização dos recursos já existentes nas plataformas de telemedicina para realizar consultas multidisciplinares de aconselhamento reprodutivo. O projeto foi apresentado e submetido mas… o financiamento foi negado. O Ferti-talk teria permitido que jovens doentes oncológicos discutissem com um painel de especialistas, sem se deslocarem e no âmbito da sua consulta de oncologia, a possibilidade de implementar estratégias de preservação do seu potencial reprodutivo. Sem perder tempo precioso nem gastar recursos, levando os especialistas ao doente, na sua residência ou no consultório do seu médico assistente.

Esta pandemia é a oportunidade para refletir sobre as possibilidades e limites da teleconsulta e para, ultrapassada esta fase, ponderar bem o investimento que permita usufruir de uma tecnologia poderosíssima mas com limites que têm de ser definidos.

Hoje, com a multiplicidade de plataformas que consentem até ministrar o ensino a distância, apenas haverá que assegurar a proteção e a confidencialidade dos dados pessoais e clínicos. Seguramente não será necessário um grande investimento.

A Associação Portuguesa de Telemedicina e os seus dirigentes deverão ter uma palavra na redefinição das modalidades de consulta após esta pandemia. Seguramente, doentes e profissionais estarão já motivados.

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