Telelíderes. Precisam-se.

por Rita Veloso*

* Vogal do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Póvoa de Varzim – Vila do Conde

A Telessaúde não é um tema novo ou especialmente inovador nem requer requisitos tecnológicos muito sofisticados; o que é o novo é o interesse e a necessidade repentina que este momento suscitou e que obriga a uma reflexão e estratégia para que possa finalmente estar presente de forma sedimentada nos nossos prestadores de saúde e, sobretudo, na rotina dos nossos cidadãos.

Foi recentemente num webinar sobre liderança digital promovido pelos SPMS e pela APAH, que o conceito de telelíder me despertou especial atenção.

Efetivamente cada vez mais me convenço que a liderança nesta matéria como noutras, é sem dúvida, um dos maiores facilitadores (ou inibidores) da necessária mudança  nas Organizações mas, mais importante, nas Pessoas.

Talvez uns tenham despertado mais cedo do que outros, e outros tenham sido despertados pela situação atual em que nos encontramos.

Talvez uns estivessem mais preparados para esta luta do que outros e estou certa de que não partimos todos do mesmo ponto de partida nesta matéria.

A Telessaúde não é um tema novo ou especialmente inovador nem requer requisitos tecnológicos muito sofisticados; o que é o novo é o interesse e a necessidade repentina que este momento suscitou e que obriga a uma reflexão e estratégia para que possa finalmente estar presente de forma sedimentada nos nossos prestadores de saúde e, sobretudo, na rotina dos nossos cidadãos.

A implementação de soluções de Telessaúde em Portugal tem mais de 20 anos e foi impulsionada precisamente pela vontade de repensar como tirar partido de know-how técnico e intelectual à distância permitindo, por exemplo, a populações mais desprotegidas ou geograficamente distantes ter acesso a cuidados de saúde especializados não deixando ninguém para trás. As primeiras atividades de Telessaúde de que há registo realizaram-se em 1998 através da criação da linha telefónica “Dói, Dói? Trim, Trim!” e das teleconsultas na área da cardiologia pediátrica no Hospital Pediátrico de Coimbra (Fonte: CNTS).

Fig.1 – Evolução Tecnológica da Telessaúde em Portugal
Fonte: Plano Estratégico Nacional para a Telessaúde 2019|2022

O e-saúde, e em particular a Telessaúde, têm vindo a ser reconhecidos internacionalmente pelos vários sistemas de saúde como uma oportunidade para fazer face aos grandes desafios na promoção da saúde e na prestação de cuidados numa população cada vez mais envelhecida e consumidora de serviços de saúde. A Telessaúde, para além de permitir a transposição de barreiras geográficas e um acompanhamento mais continuado, facilita a partilha de informação e melhor articulação de cuidados, e torna todo o sistema mais sustentável.

Mas Telessaúde não são só teleconsultas:  a teletriagem, a telemonitorização, o telediagnóstico ou o telerrastreio e teleformação, são disso exemplos.  A própria receita sem papel pode ser considerada um ato de Telessaúde. No SNS, muitas destas iniciativas são ainda locais.

A pandemia veio acelerar toda esta transição digital e fazer repensar a nossa forma de nos relacionarmos com o trabalho e com as Pessoas (…) para se sedimentar a adoção destas ferramentas por parte dos profissionais e impulsionar a literacia digital e em saúde dos cidadãos e que é tão necessária para uma verdadeira mudança cultural.

Outras têm âmbito regional ou mesmo nacional, como é o caso da teleconsulta que agora ficou disponível no Registo de Saúde Eletrónico, tendo visto as suas primeiras implementações através da Área do Cidadão do Portal do SNS, no Hospital de Ovar e no Centro Hospitalar da Póvoa de Varzim e Vila do Conde. Curiosamente, eram estas mesmas instituições aquelas que largamente se destacavam, antes da pandemia, nas receitas sem papel, com a sua % diária acima dos 70-75% enquanto a média nacional se situava abaixo dos 10%, apostando fortemente na literacia dos seus utentes.

A experiência no nosso Centro Hospitalar não poderia ter sido melhor sendo já mais de 29.500 utentes da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde que poderão usufruir desta nova forma de se relacionar com as várias instituições de saúde que fazem parte do seu percurso no SNS.

Portugal tem efetivamente uma população cada vez mais envelhecida, mas também mais informada e devemos aproveitar esta oportunidade.

A pandemia veio acelerar toda esta transição digital e fazer repensar a nossa forma de nos relacionarmos com o trabalho e com as Pessoas mas temo que não haja o tempo necessário para se alinharem estratégias, para se sedimentar a adoção destas ferramentas por parte dos profissionais e impulsionar a literacia digital e em saúde dos cidadãos e que é tão necessária para uma verdadeira mudança cultural. Será, por isso, premente continuar a investir neste caminho e fazê-lo de uma forma consistente e planeada.

E devemos começar desde já a:

  1. Garantir a segurança da informação e a rastreabilidade dos acessos a essa informação;
  2. Garantir a interoperabilidade dos sistemas de informação;
  3. Garantir as condições operacionais para o exercício da Telessaúde;
  4. Partilhar as iniciativas de Telessaúde;
  5. Desenvolver novas ofertas de Telessaúde;
  6. Promover e divulgar o conceito de eSaúde junto de cidadãos e profissionais e sensibilizar para as suas mais-valias.

Todos concordaremos que a aposta na Telessaúde não se restringe à implementação de novas tecnologias nos processos clínico-administrativos ou aquisição de soluções muitas vezes isoladas levando a duplicação ou perda de informação. Exige antes um esforço e uma vontade de todos para mudar: mudar a forma como instituições, profissionais, doentes e cuidadores se relacionam entre si; mudar para uma cultura cada vez mais digital, colaborativa e de partilha.

E tudo isto requer Telelíderes. E estes precisam-se.

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